quarta-feira, 7 de abril de 2010

A mais pura verdade

Crônica do grande Antônio Prata

Você conhece a situação. Um cruzamento: na mesma rua, duas pistas seguem em
frente, uma vira para a direita. Há dois faróis: um para quem seguirá reto
e um para quem pretende entrar na transversal ? uma flechinha luminosa, que
aponta naquela direção. Num determinado momento, estão todos fechados. Aí o
desavisado, cujo intuito é seguir em frente, para na pista que dá acesso à
direita, feliz e contente. Até que o farol de flechinha abre, o outro não e
o incauto motorista passa a empacar a fila inteira, atrás dele.

Não dá pra contar até três e já começa o buzinaço. E não é qualquer
buzinaço. A buzina, assim como o aparato vocal humano, é um instrumento
complexo. Vai do mais delicado fonfom de agradecimento ao urro viking cuja
tradução, em português, seria "saia da minha frente, seu artrópode imundo,
antes que eu arranque seus olhos com a chave de boca e os dê como alimento
para minha criação de iguanas!".

O ódio dos motoristas é tanto e a adesão ao buzinaço, tão efetiva que,
acredito, o desatento que fecha a pista está fazendo um bem aos seus
concidadãos. Onde a gente vê, numa cidade grande e agitada como São Paulo,
tamanha comunhão entre desconhecidos? Talvez só num linchamento ou num
saque a uma carreta virada. Os gregos tinham as tragédias, os romanos
tinham o Coliseu e nós temos o trânsito. Que momentos de catarse coletiva!
Que segundos preciosos de relaxamento e descontração!

Imagino que certas pessoas esperem o dia inteiro pela hora de chegar a um
farol como esse. Vários quarteirões antes, já começam a torcer: tomara que
alguém pare! Tomara que alguém pare! Tomara que alguém pare! Então ele
chega lá, o farol abre e... A fila não anda. Ah, que felicidade é meter a
mão na buzina e deixar tudo ali: o Almeidinha que foi promovido em seis
meses e eu lá ralando há anos; a Maria Alice que levou o irmão pro nosso
feriado de Páscoa e o folgado ainda assumiu a churrasqueira; o moleque que
tirou 3 em química; a filha que esqueceu de novo o aparelho móvel na
bandeja do McDonald"s; sem falar da careca, da barriga e dos adolescentes
do andar de cima, que deram pra tocar bongô às 2 da manhã.

Em meio ao buzinaço, no entanto, tudo fica menor. Aquilo, pelo menos, ele
não faz. Ele sabe que a pista da direita é exclusiva para conversão. Ele
sabe que quem pretende seguir reto tem de parar à esquerda. O que é mais
importante: diante da sinfonia, o motorista percebe que não está sozinho.
Uma dúzia de carros urram, alinhados: somos infelizes, somos ansiosos,
somos neuróticos, mas sabemos que a pista da direita é exclusiva para
conversão! Nesse instante a vida tem algum sentido ? e não fosse o imbecil
parado à frente, ele iria convicto naquela direção.

Publicado originalmente no Jornal Estado de São Paulo de 05/04/2010

CDX

Um comentário:

Erasmus Garp disse...

As conversões em São Paulo estão bem sinalizadas com imensas flechas pintadas no asfalto em boa distância.

Estou tão acostumado com a boa organização do trânsito daqui que não conseguiria dirigir em outras cidades. Basta ir pra Guarulhos (da Grande São Paulo) para notar a diferença de organização.

O problema não é o trânsito, mas alguns motoristas que não respeitam o direito de ir e vir, o típico espertinho querendo levar vantagem.

Dica: Mantenha distância de carros luxuosos ou oficiais. Geralmente são os motoristas mais arrogantes, afinal, dinheiro é poder.