Por Leandro CDX Morais
Já estava na cama com meu esposo. Era tarde da
noite e a insônia atacava. Então peguei uma revista para ler. Acabei
encontrando uma entrevista com o Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones,
hoje com uns 300 anos de idade. Ele relatava ao repórter mil peripécias,
de quando era mais jovem, e tinha cheirado até o pai! Ele foi indagado se
pretendia, diante de uma vida de tantos sabores e prazeres, escrever uma
auto-biografia.
Então o talentoso artista revelou que “nem se
lembrava de ontem, quanto mais o que aconteceu a anos atrás”. Eu
gostei da resposta sincera. Ele poderia ter dito que certamente escreveria um
auto-biografia. Contaria como foi viver os primeiros anos de vida sob os
ataques nazistas. Depois relataria como seu avôque tocava jazz lhe
apresentou a música. E por fim explicaria como formou a banda e se tornou mundialmente famoso. Se essa fosse a resposta dele, provavelmente depois da
entrevista ele ligaria para seu empresário e pediria para contratar o melhor
biógrafo do momento, para “ajudá-lo” a lembrar o que fez de interessante
nos últimos 200 anos.
Mas não. Ele se limitou a falar a verdade. Talvez
porque se mentisse ninguém acreditaria. Uma pessoa que já cheirou
tudo o que cabia pela narina e já injetou quase tudo que pudesse ser
comprimido pelo êmbolo da seringa, não tem, digamos, muita credibilidade para
assuntos relacionados à memória.
Que fique bem claro que não estou criticando o
estilo de vida ou a pessoa que é e foi o Keith. Sinceramente aprecio
o trabalho dele (tal qual dos demais Stones) e sinto até um pouquinho de
inveja branca. Já fui embalada muitas vezes, em braços másculos,
ouvindo Stones nos anos oitenta. E certamente se um dia fosse uma Rock Star, digo
que também abusaria de drogas, sexo e dinheiro , assim como ele fez.
Senão para que serve ser um Rock Star? Mas a questão aqui é a memória! É
escrever uma biografia. Considero isso uma missão impossível.
Eu mesma, tento a alguns anos, reunir os cacos de
lembranças para formular uma auto-biografia. Mas entendam que é
algo tão complicado quanto dar a luz a quadrigêmeos. Quem escreve uma
auto-biografia só tem três possibilidades. A primeira opção é contratar um
especialista que possa fazer o serviço por você: é o famoso Ghost Writer.
Ele vai pesquisar e escrever coisas interessantíssimas sobre você.
Mas no fundo nem você faz idéia que um dia fez aquilo tudo. E pasmem em
saber: muitos famosos usam dessa artimanha.
O segundo caminho é inventar tudo. Se sua vida
não foi lá essas coisas, melhore um pouco ela. As pessoas gostam
de histórias impressionantes e picantes. Construa alguns casos
extra-conjugais com algum político famoso ou um intelectual em seu auge na
época, invente como escapou da morte (duas vezes!), esse tipo de baboseiras.
O grande perigo dessa alternativa é você ter fãs espalhados por
aí. Eles saberão o que é verdade e o que não é. E vão te processar por
falsidade ideológica.
E a terceira possibilidade e a mais
inacreditável, é você realmenteescrever a biografia, relatando pormenores dos
últimos 40, 50, 60 anos. Digo inacreditável porque a memória humana, mesmo
quando estimulada e bem cuidada não é como um computador, que guarda tudo
exatamente como lhe éinformado. Eu fico embasbacada quando leio uma
auto-biografia, onde Fulano diz que “naquela manhã de 7 de outubro de 1971
ele acordou bem disposto, pois fazia vinte graus a sombra, o vento soprava
a noroeste a 18 km/h. Para seu dejejum ele degustou duas tâmaras frescas e
uma xícara de café União, com 2 gotas de adoçante.” Para com isso! Ninguém
tem uma memória assim! Essas pessoas que escrevem auto-biografias 100%
reais dessa forma não deveriam fazer o que fazem . Deveriam ir
trabalhar na NASA, ou receber um prêmio Nobel da Memória. “ E o prêmio desse ano
vai para Ciclano, que ao lançar sua auto-biografia revelou ao mundo sua
excelente memória ao descrever com precisão a roupa que sua tia
Zuleide vestia quando foi visitá-lo no berçário no dia do seu nascimento!”
Eu quero escrever uma auto-biografia. Acho que
minha vida sofrida deve ser compartilhada com outras pessoas. Eu já
passei por muitas adversidades. Talvez eu seja um bom exemplo de
superação para muitas mulheres mundo afora. Entretanto eu não sei como fazer
isso. Não vou contratar alguém pra contar minha vida. Ghost Writer
está fora de cogitação. Também não tenho o hábito de mentir. Não vou
inventar nada sobre mim. Porém minha memória nunca foi das mais exímias. Então
fico ilhada, sem ter como levar esse projeto adiante.
O Keith disse para seu entrevistador: “Minha vida
é uma luta constante para lembrar o que aconteceu na década
de 70, não tenho condições de escrever uma biografia”. Eu não usei drogas
naqueles tempos. Mas eu também não lembrava do que aconteceu naquela
década. E nem em outras. Eu e Richards estamos unidos pela infâmia do
esquecimento.
Por hora vou guardar essa revista, apagar o
abajur, e tentar dormir antes que o marido acorde. “Vai dormir mulher!
Sua vida não é interessante para ninguém!”, disse ele ontem. Talvez ele
tivesse razão. Uma mulher desmemoriada deve permanecer esquecida.
CDX
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