quarta-feira, 21 de outubro de 2009

CRÔNICA




NOS TEMPOS DE BLADE RUNNER


Por Leandro CDX Morais

Ah como eu tenho saudades da década de oitenta! Aquela sim era uma época mágica. Tenho saudades de muitas coisas daqueles dias alegres. Naqueles dias você podia se vestir como bem quisesse, tudo era válido! Roupas coloridas, extravagantes, e o melhor: não eram brega. A breguice inventaram depois, já nos anos noventa.

Saudades dos grandes cinemas. Toda cidade tinha um. Antes quem lotava aqueles saguões e poltronas eram os fãs de Indiana Jones e Guerra nas Estrelas (isso mesmo, porque o tal de Star Wars inventaram depois, no final dos anos noventa). Hoje quem frequenta o mesmo espaço de outrora são fiéis buscando desencapetamento total. Todos os grandes cinemas viraram igrejas ou templos.

Sinto falta até mesmo dos detalhes mais frívolos daqueles dias, como por exemplo os anúncios luminosos com tubos de neon. O bom e velho gás nobre, incolor e inerte era magia pura naqueles anos! Tudo na noite divertida e sem limites ele iluminado e colorido por esse gás. Hoje modernizaram tudo. Os velhos luminosos com neon foram suplantados por placas com iluminação interna. Muito mais economia e luminosidade. Muito menos charme.

Os luminosos de outrora tinham a peculiaridade de emitir um zunido singular quando ligado, coisa que nunca souberam me esclarecer porquê. Altas horas da madrugada, o trânsito repousava e os pedestres não passavam. Era o momento que reinavam os letreiros com neon. O centro da cidade (assim como de qualquer outra cidade oitentista, imagino eu) concentrava a maioria dos luminosos com neon. E era na madrugada que eles rompiam o silêncio com sua sinfonia característica. Eram letreiros de restaurantes, padarias, farmácias, das Pernambucanas, do Banco do Brasil e até de lojas que hoje ficam só na memória como a Soesma, Mesbla e Brasileiras.

Uma coisa que começou a melhorar a partir dos anos noventa foi o investimento em iluminação pública. Anteriormente até mesmo as avenidas centrais eram parcamente iluminadas. Assim sendo os locais onde existiam os luminosos com neon eram pontos, digamos, privilegiados para qualquer atividade noturna, como por exemplo a prostituição. Era corriqueiro passar pela madrugada e avistar abaixo de um grande letreiro com neon uma profissional do sexo aguardando o próximo cliente. Salto alto, batom vermelho berrante, mini saia, cabelo com topete a base de cosméticos. Naqueles tempos as mulheres da vida tinham estilo. Lembro-me que a Tina Turner certa vez comentou que para ser sexy na década de oitenta bastava mini saia, batom vermelho e salto alto. E com as pernas que ela tinha estava certa!

As prostitutas tinham um outro padrão. Eram carinhosas, boas de papo e de cama. Valia cada centavo de cruzado investido. Ah que saudade dos anos oitenta! As meninas de hoje não tem o mesmo jogo de cintura. Não sabem conquistar o cliente como as veteranas faziam. Hoje é só "recebo adiantado" , "não beijo" , "não faço isso nem aquilo". Quem se sente prostituído com tantas exigências é você! Antigamente não tinha nada disso.

Só o fato de cobrar antecipado já é um sacrilégio! Pagar por um serviço ainda não realizado pra mim é uma ofensa! A embalagem muitas vezes até é bonita, mas nem sempre o conteúdo corresponde ao esperado. A uns vinte anos atrás o procedimento era outro. A relação cliente/prestadora de serviços era mais amigável. Existia confiança, até porque a menina sabia de seus dotes e sabia que cliente feliz "volta sempre". Ah, anos oitenta!
Um sábado a noite, na década de oitenta, para um solitário era totalmente diferente do que é hoje. Normalmente nosso hipotético amigo oitentista ficava em casa porque seus amigos tinham encontro com as namoradinhas. Então começava a assistir um Super Cine. Como era a trigéssima vez que a Globo exibia Stallone Cobra (naquele mês!), ele decide desligar a TV e ligar o rádio. Quem sabe ouvir um rock lhe ajuda a matar o tempo. Na estação de rádio rolava um RPM. Nosso amigo solitário já está de saco cheio do Paulo Ricardo. Então qual sua opção? Ir em busca de uma prostituta à espera em algum luminoso com neon.

Veste sua jaqueta, calça seu All Star e sai com seu Passat. Até mesmo andar de carro ou de motocicleta era mais divertido nos anos oitenta. Automóveis com quebra-vento e afogador. Cinto de segurança não era necessário apesar de não existir radares controladores de velocidade. As motos eram pura emoção. Ninguém usava capacete. Às vezes não usavam nem camiseta. Era uma vida arriscada mas divertida. Hoje em dia tenho a sensação que morre mais gente no trânsito apesar dos procedimentos de segurança cada vez mais rigorosos. Mas essa é história para uma próxima crônica. Nosso herói, apesar das tossidas do Passat, chega à área dos luminosos com neon. Lá encontra uma garota com uma bolsa vermelha, combinando com seus sapatos e seu batom. É amor a primeira vista! Eles saem rumo a um motelzinho ali perto ao som de Flash Dance no toca-fitas. Isso sim era vida! Como gostava de ser assim. Nosso protagonista de mais de duas décadas atrás hoje é um cronista solteirão amargurado que gostaria que o tempo voltasse.

Atualmente, em tempos de internet dominando tudo, posso afirmar com precisão que os jovens com seus hormônios transbordantes, preferem ficar em casa, buscando uma pornografia asiática na tela do computador, ao invés de se aventurar nas ruas da cidade. Preferem jogos on line do que dirigir carros de verdade. Preferem MSN à uma boa flertada cara à cara. Não é à toa que os pais receiam que seus filhos tornem-se nerds eternos. Pelo menos não tive filhos para passar por esse desgosto.

Dia desses saí para dar uma volta no sábado a noite. Já não era a mesma coisa. Meu carro antes engasgante não sofria mais desse problema: agora ele era flex e tinha injeção eletrônica. Não podia mais ouvir o toca-fitas. Quando troquei de carro o novo modelo veio com CD player com bluetooth. Nunca soube usar aquela porcaria.

Passei lentamente pela antiga avenida dos luminosos. Não havia mais letreiros com neon. E as profissionais do sexo eram todas mal-encaradas. Não tive vontade de parar. Naquele momento senti um vazio no peito. Dei meia volta com os olhos lacrimejantes. Acho que sinto mais falta dos luminosos com neon do que das prostitutas. Elas talvez um dia voltem a ser como eram. Entretanto os letreiros com neon não voltam mais. Ah como eu tenho saudades da década de oitenta!



CDX

3 comentários:

Domenium disse...

CDX, você é o cara!
E não é puxa-saco de amigo, pois faço distinção entre o amigo camarada CDX e o literato Leandro. Mas você é o cara velho! Geralmente, leio algumas crônicas por mês, recomendações de leituras e afins. Acho algumas muito chatas, intelectualismo sem propósito ou assuntos que todos desejam ler. Mas sinceramente, curti sua crônica velho! Não sei se é porque eu estou ficando velho e as putas mal encaradas, mas eu curti! O foda das putas, estive pensando. Antes elas pegavam o dinheiro para comprar leite para o filho ou gastar com suas necessidades diárias. Hoje o dinheiro vai para o craque.

CDX, ainda omisso disse...

Pois é,,,, A putas vintage eram massa!

Erasmus Garp disse...

Grande comentário do Pinga. Até me identifiquei com a crônica num meio termo zuado: entre o saudosismo e a pornografia da internet (russa em vez de asiática).

Tava comentando com um camarada ainda nesse fim de semana que a maioria das putas são melancólicas ou interesseiras ao extremo, e restam poucas interessantes de fato. Mas isso é a lei da oferta e da procura, a putaria hoje está generalizada.

Curto mais a década de 70, não tinha AIDS e as pessoas tinham personalidade: ou era muito louco ou muito nerd, ou seja, todos contribuiram num processo de evolução cultural ou científica. Já existia tudo: torres gêmeas, rádio FM, TV a cores, avião Concorde, rock progressivo. Os estilos das roupas e dos biquinis foram os melhores. A partir de 1969 foi o boom cultural, na tecnologia e na ciência, quando o homem foi pra lua e a inteligência artificial começou.

Lojas antigas lembrei da Arapuã, da HM (em Maringá) e do Mappin (em São Paulo). Depois chegou as Casas Bahia e levou todas elas.. huahua